Desinteligencias


Um grande mal que afecta tambem os libertarios é a grande desunião que lavra entre uns e outros. A verdade é esta, e ella debe sempre dizer-se.union_accion.jpg

Não se devem aparentar uniões que não existem e concordias que se não establecem. É preciso não fazer o que fazem os republicanos, que ora dizem que é precisa muita solidariedade e que é necessaria uma activa propaganda de ideias, ora apregoam que o partido republicano é forte e unido, que o pais é todo um bloco republicano. Não se faça crer ao povo numa cousa que não existe. O povo devia saber tudo que se passsa entre todos que apregoam ideias, para saber com quem pode contar, quem é por elle e contra elle. Se os outros não se apresentam tal como são, não podem os libertarios fazer o mesmo, porque isso seria atraiçoar a verdade, pela qual tanto se pugna.

Existem desinteligencias entre os libertarios, filhas, é natural, de cada um pensar livremente e de livremente seguir o caminho que intende ser o melhor. Mas estas desinteligencias têm tomado um carácter tão acentuado, que em logar de, pelo embate das ideias, se fazer mais luz para todos, parece que as ideais se chocam para fazer perder a todos o bom senso que os devia harmonisar.

Podem haver mil opiniões sobre os detalhes de propaganda e de luta. Mas desde que o ideal é o mesmo, porque não se hão-de todos harmonisar, respeitando mutuamente e obrando conjunctamente, sempre que seja necessario tratar de questões comuns, que são muitas, porque sabem todos, que embora diversamente, todos trabalham sinceramente para o mesmo fim?

Esta falta de solidariedade, faz um mal enorme á ideia, porque esta está no periodo em que é preciso apresentar-se ao povo, completamente limpa de discordias entre os seus partidarios. O povo liga sempre a doutrina pregada ao pregador; e segundo elle, assim a ideia é mais ou menos facilmente aceite. Quanto menos radicado está um ideal, mais os seus propagandistas têm que se apresentar solidários, porque toda a desharmonia que haja entre elles, reflecte-se nos principios, para quem não sabe extremar as ideias, das paixões que agitam os homens.

Emilio Costa
Lisboa, 1903